O dia que Paulo Freire visitou a região

O dia que Paulo Freire visitou a região

De acordo com o frei, o atual deputado estadual, Luiz Fernando Mainardi (PT) teve uma atuação decisiva no dia da visita

O dia em que Paulo Freire (1921-1997) visitou a região. Foi no dia 25 de maio de 1991. Há 30 anos, a maior referência na Educação cruzava os chãos da região para chegar até o Assentamento Conquista da Fronteira em Hulha Negra. Um dia que ficou marcado na história e que deverá ser lembrado para todo o sempre.

Frei Sérgio Görgen é o registro vivo da luta dos camponeses pobres. Ao olharmos sua trajetória podemos observar sua incansável atuação em diversas frentes, desde a participação em movimentos sociais e partidários até sua luta pelo direito à terra e alimentação saudável, com livros que criticam produtos transgênicos. “Eu sou de uma geração que teve Paulo Freire como um dos grandes ícones. Aquela ideia da alfabetização de adultos foi algo que me encantou já no comecinho, antes mesmo de ler ‘A Pedagogia do Oprimido’, por incrível que pareça”, afirmou.

A ideia da visita

Em matéria publicada pelo MST, o frei Sérgio conta que para aplicar o método Paulo Freire de alfabetização foi necessária muita pesquisa, principalmente do universo vocabular e temático. “No final dos anos 90, nós fizemos um levantamento nos acampamentos e assentamentos do Rio Grande do Sul e percebemos que um número muito grande de nosso povo era analfabetizado ou analfabeto funcional”, relatou.

Uma defesa importante que Frei Sérgio faz destes estudos é a visão de Paulo Freire de que a educação não se dá exclusivamente na escola: ela tem um contexto social. “Uma rádio comunitária tem que ser educativa, uma pastoral, uma relação entre técnicos do campo com os camponeses tem que ser uma relação educativa”, defende.

A partir desta primeira pesquisa, foram formadas turmas de monitores que estudaram a pedagogia e a filosofia de Paulo Freire. “Não é um método mecânico. Se ele é aplicado mecanicamente talvez não surta os mesmos efeitos. É um método interativo, politizador, baseado principalmente no debate, na emoção, não é só uma coisa racional”, destaca o frei.

E foi neste grupo que surgiu a ideia de convidar Paulo Freire para visitar um destes projetos de alfabetização em um assentamento. Na época, Freire era Secretário de Educação na cidade de São Paulo e Frei Sérgio viajou até a capital paulista para conhecê-lo. “Ele era uma pessoa maravilhosa mesmo. Tudo que o pessoal diz por aí é pouco. Ele me recebeu carinhosamente, conversou, contei o que estávamos fazendo, levei fotos do pessoal trabalhando, relatórios da turma, e o homem se encantou. Ele ficou visivelmente emocionado”, relembrou o religioso.

A chegada no Assentamento Conquista da Fronteira

Emocionante também foi a visita de Paulo Freire, mesmo diante de uma situação desfavorável devido ao mau tempo, que dificultava o acesso à região. “Explicamos pra ele todos os problemas que poderiam acontecer: poderíamos bater, cair numa valeta, parar no meio da estrada, tudo que pudesse imaginar. Aí ele disse uma frase que eu considero emblemática, eu considero para mim a maior síntese do pensamento de Paulo Freire: ‘“Como é que eu, perguntando e afirmando, como é que eu que escrevi A Pedagogia do Oprimido, não vou lá onde os oprimidos escrevem a sua pedagogia?”’, relembrou o frei.

 De acordo com o frei, o atual deputado estadual, Luiz Fernando Mainardi (PT) teve uma atuação decisiva no dia da visita. “Em meio ao barral, Mainardi conduziu o professor de Hulha Negra até o Assentamento Conquista da Fronteira e trazia o maior pedagogo brasileiro de todos os tempos até o local. Inesquecível. Paulo se referiu a Mainardi como ‘hábil motorista’”, ponderou o frei.

No assentamento, comoção, felicidade e muito conhecimento compartilhado deram o tom do encontro histórico. Em certo momento, uma questão amplamente discutida foi exposta ao pensador: a experiência, contou o Frei, é que as turmas começavam com 20, 30 pessoas, porém, assim que as pessoas aprendiam a escrever o nome, 80% não apareciam mais. “Nós perguntamos para o Paulo Freire, ‘onde é que nós estamos errando? Porque as pessoas não ficam?’ E o Paulo Freire respondeu: ‘vocês não estão errando em nada. Vocês fizeram o trabalho de vocês’. E perguntou: ‘alguém de vocês já viu como um analfabeto é tratado quando chega num lugar? Alguém grita: traz de lá a almofada com tinta porque chegou mais um daqueles. Vocês sabem o que é a humilhação de não saber escrever o nome? E quando a pessoa conseguiu aprender a escrever o nome, ela virou outra pessoa. E talvez o objetivo dela era não passar mais essa humilhação’. A partir desta resposta, o grupo passou a ter muito mais ânimo para continuar seus trabalhos, afinal, a evasão nos cursos não estava mais relacionada à uma falha no método, mas à alfabetização de adultos garantindo um primeiro passo de cidadania: a conquista de não ser mais humilhado em espaço público”, disse o frei.

Outra história cativante deste encontro, conta o Frei, foi conversando sobre a música “A Caneta e a Enxada“, apresentada para Freire durante a visita, uma música caipira onde a caneta e a enxada não se entendem. “Ali há um conflito entre o conhecimento teórico, intelectual e o trabalho prático. Paulo Freire disse para nós assim ‘não é bom que essa cultura se estabeleça. A caneta e a enxada têm que conversar entre elas, tem que dialogar’. Depois nós criamos aquele símbolo, de um lado caneta do outro a enxada, uma emendada na outra, como se a caneta fosse o cabo da enxada”. Frei Sérgio lembra também de outro instrumento que serviu de comparação, feita na hora por um jovem assentado. “É como se o pensamento do Paulo Freire fosse um alicate para cortar a cerca de latifúndio do conhecimento. Porque cortar a cerca com o alicate eles já sabiam fazer, agora usavam como alicate o pensamento dele”, descreveu.

Responsável por assegurar o retorno de Paulo Freire, Frei Sérgio relembra uma confissão emocionante sobre a visita e sua visão geral sobre os assentados com quem conviveu. “Ele disse assim ‘eu já passei por muitos lugares do mundo. Eu já vi muita pobreza em todos os cantos do mundo (…), mas em nenhum lugar eu vi pessoas pobres com tanta dignidade como no assentamento que eu encontrei aqui. Pessoas pobres de cabeça erguida. Essa é das maiores contribuições do MST. A gente vê que eles são pobres, a gente vê que eles têm carências muito grandes, mas eles aprenderam a andar de cabeça erguida. É uma pobreza vivida com dignidade’”, rememorou.

Sobre o legado de Paulo Freire, Frei Sérgio aponta que seus estudos ainda são um grande desafio para todos, mas que sua figura continua viva e presente, o que é o mais importante. “Paulo Freire foi um pensador que pensou o mundo a partir do mundo; tinha os pés no chão e a cabeça no mundo. E os últimos escritos dele já estavam tratando questões como ecologia, como a crise civilizatória e aguda que estamos vivendo hoje. As últimas falas dele, inclusive, já trazem esses elementos”, salienta.

Para ele, a pandemia nos coloca numa situação completamente diferente do que vivemos até hoje, principalmente diante das crises que vivemos. “Mas é exatamente neste momento que Paulo Freire passa a ser de novo tão importante, uma vez que não sairemos dessa crise sem olhar para nós mesmos, sem dialogar muito, sem conversar muito, sem conhecer a nossa própria realidade. Afinal, o primeiro passo do processo de educação de Paulo Freire é: conheça a própria realidade”. Frei Sérgio relembra o cerne de uma pedagogia dos oprimidos de Paulo Freire, onde “através de uma pedagogia deles, eles se organizam para superar a opressão, para serem livres, serem gente, serem cidadãos, mulheres, índios, negros, operários, e construir uma sociedade libertada e libertária. Esse é o núcleo central do pensamento dele”, garante.

O centenário

Diversos eventos virtuais por todo o Brasil e vários países vêm marcando, desde o ano passado, os 100 anos de nascimento de Paulo Reglus Neves Freire. Conhecido apenas como Paulo Freire, ele é o um dos educadores mais famosos e respeitados mundialmente. Nascido no Recife (PE), em 19 de setembro de 1921, desenvolveu um trabalho considerado clássico na sua área, mas seu legado transborda as fronteiras da educação, entrando por vários outros campos do conhecimento.

A vereadora de Candiota, Luana Camacho Vais (PT), solicitou uma sessão especial na Câmara de Vereadores da cidade para homenagear o centenário de Paulo Freire, que ocorrerá no dia 16 de junho. “Inclusive na sessão especial os movimentos sociais estarão fazendo uma apresentação relembrando um pouco o dia que ele visitou a região e o Assentamento Conquista da Fronteira. Também no dia da sessão terá doações de livros do Paulo Freire para a Secretaria Municipal de Educação. Ele é o patrono da Educação. No dia 26 de maio, aconteceu também um grande ato nacional, via plataformas online”, salienta.

* Matéria publicada no jornal Tribuna do Pampa

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