Região contabiliza quase sete vezes mais óbitos que departamento uruguaio de Cerro Largo

Região contabiliza quase sete vezes mais óbitos que departamento uruguaio de Cerro Largo

Se existe algo que os países vizinhos têm razão ao se referirem ao Brasil, é sobre o temor de sofrerem o mesmo destino de terem que lidar com a tragédia de contabilizar quase 320 mil mortos por Covid-19. O fracasso que o País mostra diante do Mundo ao jamais ter empreendido medidas sérias de contenção à pandemia por coronavírus se traduz em números: somente o município de Dom Pedrito, com população estimada de 38.339 habitantes, já registrou mais óbitos por covid-19 que o departamento inteiro de Cerro Largo, no lado uruguaio da fronteira, que reúne um conjunto de nove municipalidades e que tem mais que o dobro do número de habitantes – estimada em 84.698 residentes.

Com mais três mortes contabilizadas em Bagé – duas mulheres, de 86 e 70 anos e um homem, de 75 –  neste 31 de março de 2021; a região, que compreende os municípios brasileiros de Aceguá, Bagé, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra e Lavras do Sul, chegou a 181 vidas perdidas durante a pandemia, enquanto que no lado uruguaio, o departamento de Cerro Largo contabiliza, até o momento, 26 mortes oficiais no total.

Lado a lado

A Capital da Paz, considerada um dos destinos com melhor atuação no enfrentamento à covid-19 no Rio Grande do Sul, soma 31 óbitos desde o início da pandemia; enquanto Fraile Muerto Isidoro Noblía, Aceguá (no lado uruguaio), Tupambaé, Placido Rosas, Arévalo, Arbolito, Ramón Trigo, Rio Branco e a sede do departamento, Melo, a cerca de 120 km da Rainha da Fronteira, registraram 26 óbitos no mesmo período, mesmo contando com mais que o dobro da população de Dom Pedrito. Até ontem, 30 de março, duas novas mortes foram registradas em Cerro Largo, mas ainda não tiveram confirmação do diagnóstico pelas autoridades de saúde uruguaias.

Conforme as estimativas das populações de cada região pesquisada, a área da abrangência da 7ª CRS em seus seis municípios conta com pouco mais que o dobro de moradores que o Departamento de Cerro Largo – 188.543 habitantes no conjunto de Aceguá, Bagé, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra e Lavras do Sul, em relação a Cerro Largo – 84.698 residentes.

Contudo, no lado de cá da fronteira, são registrados quase sete vezes mais mortes associadas à covid-19 em relação à região vizinha.

Abordagens

Para encontrar algumas das razões que possam explicar as diferenças aberrantes entre o que acontece no lado brasileiro e no Uruguai, a reportagem conversou com a jornalista uruguaia Silvia Techera, que ressaltou algumas das medidas que mantiveram o país com registros bem menos expressivos em relação à pandemia.

– Silvia Techera é repórter, radialista e periodista nos veículos Noticiario Subrayado do Canal 10 (TV Montevideo), Radio La Voz de Melo, correspondente em Cerro Largo para Montevideo de Radios Públicas e também da Radio Uruguay, RNU.

Silvia explica que no Uruguai não foram aplicadas medidas como o fechamento total do comércio – exceto os free-shops nas cidades de fronteira, porém, a circulação do vírus SARS-CoV-2 estava sob controle por conta de medidas rígidas através da aplicação do distanciamento físico, do uso obrigatório de máscaras e higiene pessoal em todos os locais públicos de circulação e comércio, coisa que não se vê por aqui, pois ainda hoje é comum ver pessoas nas ruas das cidades da região sem usar nenhum tipo de proteção contra a doença, além das diversas ocorrências de aglomerações – clandestinas ou em plena luz do dia.

Conforme ela, a situação atual da pandemia no Uruguai é de preocupação, principalmente na fronteira com o Brasil, por conta do avanço descontrolado de casos, além da falta de rastreio.

“Yo creo que en Uruguay recién ahora, en este momento estamos teniendo realmente el impacto de la pandemia. Hasta ahora estuvo bastante controlado y no se perdía el hilo epidemiológico”.

– “Eu creio que no Uruguai recém agora, neste momento, estamos tendo realmente o impacto da pandemia. Até agora, estava bastante controlado e não se perdia o rastro epidemiológico [linhas de contaminação]” – Silvia Techera (em tradução livre).

A situação era semelhante na região de Bagé até o segundo semestre de 2020, quando as autoridades de saúde ainda eram capazes de rastrear as linhas de contaminação para isolar as pessoas doentes e evitar a disseminação desenfreada da covid-19. Hoje, aqui já não é mais possível esta abordagem, dada a quantidade de casos diários que são reportadas todos os dias.

Uma das ações colocadas em vigor pelas autoridades uruguaias que mais contribuiu para proteger a população é a restrição de circulação na fronteira entre os dois países, que a despeito de causar imensos prejuízos ao comércio bilateral, especialmente no turismo de compras e de passeio, manteve os uruguaios relativamente a salvo do desastre que ocorria aqui. Isso também se traduz em números: enquanto até ontem, o Rio Grande do Sul já somava 19.432 mortes relacionadas à pandemia, o Uruguai registrava 953.

Em entrevista ao Expresso Pampa, Silvia Techera, jornalista uruguaia, relatou situação da pandemia no país vizinho e o medo da população local com a explosão de casos, que já tem reflexos no país de 3,2 milhões de habitantes.

Foto: Arquivo pessoal/ Expresso Pampa

Vinte vezes mais probabilidade de morte

Mesmo que se leve em consideração que o total da população gaúcha é praticamente de 3,5 vezes o tamanho da uruguaia – o RS tem 11.422.973 habitantes, enquanto o Uruguai estima ter população de 3.286.314 – no que diz respeito ao enfrentamento da pandemia, o número de mortes causadas pela covid-19 no Estado é mais de 20 vezes maior que a registrada no país vizinho.

A grosso modo, é possível afirmar que após mais de um ano de pandemia, a probabilidade de alguém no Rio Grande do Sul ser infectado e morrer em decorrência do coronavírus é 20 vezes maior que a de um cidadão uruguaio residente.

Taxas de mortalidade

As diferenças se traduzem também em uma discrepância abissal em termos de mortes a cada 100 mil habitantes. Enquanto o Rio Grande do Sul registrava 170,1 óbitos para cada 100 mil moradores; no Uruguai, a taxa de mortalidade cai para 29 mortes a cada 100 mil habitantes, número quase 5,8 vezes menor que deste lado da fronteira.

Se comparar somente a taxa de mortalidade atualizada da região de Bagé com a de Cerro Largo, o número de óbitos a cada 100 mil habitantes alcança uma taxa de 95,5; mais de 3,1 vezes superior ao que é registrado na região vizinha, que conforme pesquisa exclusiva do Expresso Pampa, registrava, até ontem, 30,7 mortes a cada 100 mil moradores.

A partir destes dados, a pergunta que fica é: se a região tem somente o dobro da população, mas por outro lado registra sete vezes mais mortes e tem uma taxa de óbitos a cada 100 mil habitantes mais de 3 vezes superior que ao departamento uruguaio mais próximo –  que vale dizer, não se propagam por lá mentiras sobre “tratamento precoce”, cloroquina e outras teorias pseudocientíficas – onde mais que erramos?

Uma das prováveis respostas para a pergunta é que diferente daqui, o governo uruguaio, os órgãos regionais e locais, além das entidades privadas e sociedade, não se dividiram totalmente a ponto de paralisar o combate à pandemia e também não politizaram cada ato relacionado ao tema.

Impactos

A situação que mostra o abismo entre a abordagem aqui e lá em relação à pandemia é que enquanto o negacionismo científico é propagado até mesmo por autoridades dos mais altos escalões, lá, a tônica da mensagem é de união nacional contra a propagação da doença, conforme frisou Silvia:

“El mensaje del gobierno desde el día 1 [do primeiro caso], fue que hay que cuidarse y que es una pandemia. Que la responsabilidad es de todos y cada uno de los uruguayos”. – Silvia Techera.

Por estas razões, o temor das nações vizinhas quanto ao descontrole total da pandemia em terras brasileiras é justificado. Segundo Silvia, os uruguaios da fronteira veem a situação brasileira com muita preocupação, pois muitos deles tem familiares nos dois lados da divida entre os países.

“Aquí en la frontera, Brasil forma parte de nuestra cultura, nuestra sociedad y nuestros cariños. Las oportunidades laborales, de trabajo  es el mayor problema. Considero tendremos semanas con algo contagió y muertes. Aunque la vacunación va en avance. Todos los funcionarios públicos de primera línea, salud, policías,militares, educadores se han vacunado en alto porcentage”.

– “Aqui na fronteira, o Brasil é parte de nossa cultura, sociedade e são nossos afetos (como os uruguaios veem os brasileiros). A falta de oportunidades de trabalho é hoje o maior problema (por conta do fechamento da fronteira). Eu acredito que teremos semanas com mais contágios e mortes, ainda que a vacinação continue. Todos os funcionários de primeira linha – saúde, polícias, militares, professores já foram imunizados em altas porcentagens” – Silvia Techera – (tradução livre).

Oura diferença entre o que acontece entre as duas regiões vizinhas é política de vacinação dos uruguaios em relação ao que é feito aqui, no Brasil.

Conforme Silvia, atualmente os grupos mais jovens também estão sendo vacinados, com a Sinovac/Coronavac – nas faixas de 18 a 50 anos; enquanto as faixas etárias de mais risco para a doença, principalmente a partir de 80 anos, recebem a vacina da Pfizer/BioNTech, que foi a primeira a ser registrada a autorizada pelas autoridades sanitárias no Brasil. Porém, devido a entraves impostos pelo governo brasileiro ainda em 2020, o País deve receber a primeira remessa de 13,5 milhões de doses do imunizante até junho.

Melo, sede do departamento, a 120 km de Bagé, tem cerca de 51 mil habitantes e registrou 22 óbitos confirmados por covid-19, menos que Dom Pedrito, que tem 38 mil moradores.

Foto: Divulgação / Expresso Pampa

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