Soldado Jerusa: uma vida dedicada a ação social e a Brigada Militar

Soldado Jerusa: uma vida dedicada a ação social e a Brigada Militar

Jerusa Oliz Nunes Alves, 44 anos, soldado da Brigada Militar, mulher, mãe, mentora do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), entrou para a reserva em 11 de novembro deste ano. Uma vida dedicada a servir ao Estado e, principalmente, voltada a projetos sociais para crianças.

Trajetória

A soldado começou sua vida profissional após terminar o Ensino Médio. Cursou pedagogia na então Universidade da Região da Campanha (Urcamp) e, após a conclusão de seu curso surgiu a oportunidade de ingressar na carreira militar. “Comecei a fazer concursos públicos e apareceu o da Brigada Militar, o meu esposo já era militar e, só tinha uma semana para fazer a inscrição, a qual era realizada no município de Pelotas. Fiz uma procuração para meu esposo fazer minha inscrição, mas eu sabia que não seria fácil, pois eu nunca havia feito prova física”, destaca.

A partir deste momento, Jerusa passou a se preparar para as etapas da prova. “Esse concurso de 1998 demorou quase um ano nas quatro fases, então o resultado final dos aprovados foi em 1999. Em maio de 2000 chamaram a primeira turma com 250 alunos e eu não entrei. Já em novembro do mesmo ano chamaram mais 225 alunos e eu entrei”, fala.

Jerusa relata que começou o curso em 29 de novembro de 2000. “Foi o curso mais longo da história da Brigada Militar, pois foi integrada as três áreas de segurança, a Susepe, a Polícia Civil e a Brigada Militar. Foram quatro meses na academia, depois mais um período somente com a BM, com um total de oito meses e 25 dias de preparação. Me formei em 15 de dezembro de 2001”, aponta.

Conforme a soldado, seu esposo já era destacado em Bagé, com isso entrou com um requerimento para consegui vir para o município. “O mesmo diário oficial que me enviou para Canoas me transferiu para Bagé, baseado na nossa lei de que a esposa tem que acompanhar o cônjuge. No dia 22 de dezembro me apresentei em Bagé, fomos até livramento eu e outro colega que também era casado com uma colega do município e começamos a trabalhar no policiamento”, salienta.

Atuação

“Eu trabalhei no policiamento até 2003, neste ano fui convidada a trabalhar no 190, onde permaneci por seis meses. Neste momento a Brigada passou a fazer os termos circunstanciados, assim me convidaram para trabalhar no cartório, onde fiquei por mais dois anos. Nesta área seguíamos no sistema as ocorrências que os colegas da rua faziam e enviava-os para o fórum e as delegacias”, frisa.

Enquanto Jerusa trabalhava no cartório de trânsito, foi convidada a atuar dois meses na guarda externa do presídio de Uruguaiana. “Fiquei de março a maio, pois revesavam as turmas. Foi um trabalho bem diferente, eu atuava aqui em Bagé, mas era pouco. Depois que retornei, fiquei mais um tempo no cartório e fui convidada a trabalhar na sessão de justiça em 2005. Foi onde eu aprendi a fazer toda a parte de reclassificação de comportamento, abria as fichas disciplinares, ajudava nas inserções dos procedimentos administrativos, dos inquéritos policiais militares, das sindicâncias. Neste local permaneci por mais três anos”, pontua.

Jerusa relata que em 2008 mudou o comando do 6º Regimento, nesta mudança foi convidada a fazer o curso do Proerd. “Fazia muito tempo que eu tinha vontade de abrir um Pelotão Mirim em Bagé, porém não tínhamos muitos meios. Quando o Coronel Leonel assumiu o regimento, ele queria fazer este projeto, pois onde ele trabalhava havia um Pelotão, então começamos a fazer contato com os órgãos de apoio como a Prefeitura e a Assistência Social, pois a muito tempo Bagé tinha tido esse projeto social e como as pessoas que trabalhavam acabaram indo para a reserva, ficou meio esquecido”, ressalta.

A soldado destaca que também atuou em Operações Golfinho, em 2007, 2008 no laranjal, em 2009 em São Lourenço, 2010 novamente no Laranjal. Já em 2011 fez uma Operação Golfinho diferente, pois atuou em todas as praias da região sul aplicando o Proerd praia, do Chuí a Tapes, todas as praias com o projeto social. Em 2018 fez a última operação no Laranjal. “Essas foram as vezes que trabalhei fora do município, em Uruguaiana e nas operações. Dentro desse policiamento atendi todo tipo de ocorrência da mais simples a mais grave. Há momentos que tu tem que agir, acalmar os familiares. Um fator muito importante foi eu ter encerrado essa fase com saúde, sem estar com problemas psicológicos, nem neurológicos que é algo que tem bastante índice com policiais militares, até mesmo pelo alto índice de estresse. Como trabalhei muito tempo com criança acho que ajudou a aliviar”, explica.

 

Proerd e Pelotão Mirim

No final do primeiro semestre de 2008, a soldado foi para o curso do Proerd. “Fiquei 15 dias em Santana do Livramento fazendo um curso difícil, muito difícil, mas como eu tinha essa base da pedagogia na área da educação e eu sempre gostei muito de criança eu continuei. Foi um desafio grande, mas queria muito, então fomos eu e o Sargento Modesto, que na época não era sargento ainda, fizemos o curso, passamos por alguns desafios, o curso é bem puxado e tu tens que atingir um objetivo. Assim voltamos para Bagé com muitas ideias, muita vontade de fazer acontecer nas escolas. Na época, tinham apenas dois instrutores que era o Rogério e o Ricardo. O Rogério estava quase parando de dar aula, estava só o soldado Ricardo atuando e, como Bagé tinha muitas escolas nós pegamos o desafio de fazer Proerd e abrir o Pelotão Mirim”, diz.

O Pelotão Mirim ficou para o ano seguinte 2009, mas em 2008 Jerusa e Modesto começaram o programa nas escolas. Neste período Jerusa trabalhava no quartel e fazia Proerd. Já no ano seguinte a soldado fazia o policiamento apenas nas férias escolares, no restante do ano trabalhava no projeto. “De 2008 para cá, nós conseguimos muitas coisas, conseguimos uma lei municipal de incentivo ao Proerd, no primeiro ano foram 30 alunos formados, depois passamos para manhã e tarde na Brigada Mirim e, formamos todos os anos uma turma da Brigada Mirim com no mínimo 50 alunos”, elucida.

A Brigada Mirim, explica Jerusa é um projeto diferente do Proerd. “O Proerd é nas escolas onde nós passamos para as crianças 10 lições de prevenção as drogas, principalmente as drogas licitas, as quais eles encontram em qualquer lugar. Já o Pelotão Mirim é diferente, passamos um ano com as crianças, de março a dezembro. Ensinando para eles a história da BM, atividades físicas, Ordem Unida, prevenção do trânsito, educação ambiental. Em 2012 ingressaram mais duas gurias no programa, as soldados Maura e Edinara, que fizeram os cursos, já o Viçosa veio de Porto Alegre com o curso do Proerd, assim, conseguimos ir somando. Eles faziam o policiamento comunitário e eu e Modesto fazíamos os projetos sociais. Desta forma, fomos plantando uma sementinha do bem, graças a Deus o nosso programa é reconhecido em todo o estado”, fala.

Jerusa destaca que tiveram no programa muitas crianças com encaminhamento de violência, de Maria da Penha e, até mesmo no próprio Proerd a criança pede ajuda.

O programa foi de 2008 até 2020, até a pandemia chegar, segundo a soldado sua vida funcional de março a dezembro era trabalhar nos projetos sociais, na Brigada Mirim e no Proerd.

Jerusa ingressou em 2008 no Proerd, em 2010 foi convidada pela coordenação estadual do programa para participar de um curso de mentora. “Não foram todos que foram convidados que conseguiram concluir o curso, pois tu tem que ensinar o policial a ser instrutor, então foi um desafio bem grande, um curso em Santana do Livramento com policiais, coronéis, oficias, pedagogos, e eu consegui me formar em mentora. Comecei a ser mentora em alguns cursos, formando outros policiais em instrutores do Proerd, fui para cidades como Flores da Cunha com policiais da serra do CRPO Serra, Santa Maria com policiais de toda metade sul, Alvorada que foi um curso que pegou toda região de Porto Alegre, Rio Pardo que pegou policiais da fronteira noroeste. Tive a oportunidade, depois de ser mentora, de ir a um seminário em Santa Catarina, com policiais militares de lá. Isso tudo acaba fazendo a gente pegar uma bagagem muito grande e entender o quanto a Polícia Militar hoje investe na prevenção então posso dizer que esses 21 anos que eu cumpri na Brigada Militar, aprendi o quanto é importante fazer o policiamento ostensivo, mas o quanto também é importante fazer a prevenção e, nesses anos, também trabalhei um pouco no policiamento comunitário nos bairros em Bagé. Eu não tenho curso da Maria da penha, mas no dia a dia do policiamento, principalmente no verão, que é o período de férias escolares, também tive oportunidade de trabalhar e orientar, uma parte da sociedade que é vítima da violência contra a mulher”, conclui.

Desafio

“Talvez o maior desafio de todos foi a entrada na Brigada Militar. A BM é 70% masculina. Infelizmente nós temos muitos colegas que ainda são pessoas muito machistas. A policial militar feminina sempre sente quando chega em uma unidade essa situação de achar que não tem força, capacidade e isso nós vamos conquistando aos poucos, vamos abrindo espaço”, fala.

Jerusa acredita que o grande desafio da policial feminina é o respeito, o respeito entre os pares desde o solado ao coronel. “Acredito que esse respeito tu consegue mostrando que tu é capaz, de trabalhar em qualquer setor, tanto no administrativo, quanto na rua, nas escolas, palestrando, atendendo um acidente de trânsito, atendendo uma Maria da Penha, dando orientação para tantas pessoas que necessitam”, diz.

Dedicação

Dentro desses anos de trabalho, Jerusa se dedicou muito aos projetos sociais. “Muitas pessoas hoje, depois que eu entrei para reserva me perguntam o motivo de eu não ter feito cursos, não ter saído graduada, por ter saído soldado. Eu tenho convicção em dizer que talvez tenha me dedicado de mais aos projetos sociais e, tenha deixado a minha carreira um pouco de lado, o curso depende de tu sair de casa, mudar de cidade, muitas vezes as pessoas não entendem que a gente tem uma família que precisa, que depende. Eu tive por muitos anos problemas de doença na família, então ficaria muito difícil de sair de casa para fazer um curso, ficar sete, oito meses fora. Meu marido, graças a Deus conseguiu, foi, fez a carreira dele, saiu na última posição do ensino médio que é como primeiro tenente, mas eu tenho tranquilidade em dizer que em cada lugar que hoje eu chego eu encontro um aluno, uma pessoa que já está se encontrando profissionalmente, que já fez o 3º grau, já tenho alunos formados em dentista, engenheiro, médico, professor, isso dignifica muito a gente”, diz.

Jerusa desde 2013 leciona no Colégio Franciscano Espirito Santo. “Trabalho com eles a disciplina de sociologia, eles chegam no Ensino Médio e lembram da canção do programa, de tudo que o Proerd ensinou, pois hoje a situação está difícil em relação as drogas, a comunidade está clamando por projetos que trabalhem com esse tipo de prevenção, então eu me considero uma pessoa muito grata por tudo que eu recebi, por toda a ajuda por esse tempo, por todo os comandantes que eu passei, eu nunca tive nenhum tipo de problema”, aponta.

Encerramento

De acordo com a soldado, foi convidada a ir para o 3º Pelotão Ambiental, lá trabalhou seu último ano. “Também foi um trabalho que eu nunca tinha feito, uma prevenção de meio ambiente, importante na parte da fauna e da flora. Uma pena que não consegui trabalhar nas escolas, que foi o motivo de ter ido para lá, pois acabou que com a pandemia não tivemos essa oportunidade de trabalhar, mas foi um encerramento de carreira tranquila. Eu fui uma das poucas que consegui ir sem pagar o pedágio, pois o Governo mudou o nosso plano, que foi para 35 anos e, as vezes, as pessoas me perguntam como eu consegui me aposentar tão cedo, na realidade eu trabalho desde os 16 anos então eu tinha um tempo de INSS, juntei com o tempo de Brigada Militar e ainda fiquei dois anos  a mais, fechei 28 anos de contribuição e, acredito que em cada escola, em cada crianças que nós passamos eu, o Modesto e agora os outros instrutores tenhamos deixado uma sementinha de paz, de amor, de que sejam grandes cidadãos responsáveis”, pontua.

 

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